na boca a vontade de beber a garrafa de vinho e meu amor está longe. os remédios não combinam com álcool mas quem sabe me adormeçam desse cansaço de ser sem saber o que se é quando não se está sendo nada. o anel prata pesado no dedo mas tão leve nos dias é marcado de histórias não minhas e agora me acompanha na luta e no deslumbramento, nos desejos e na agustia que arranca meu peito de mim mesma pra virar pedra. queria eu ser a decisão dos pingos de chuva ou a certeza do fogo que esquenta quem pede. é sem graça a decidida direção mas cheia de alívio saber pra onde se vai. ou não???. na boca o gosto do mel do biscoito escolhido por quem precisa de gentilezas na garganta e estômago e ... e... e... no corpo a saudade das línguas, dos gestos, do prazer desenhados nos olhos. no peito o medo do medo que dá. na cama a precisa necessidade do sono em paz e sem alguéns embora com todos os inquilinos restantes de minha casa-alma. calma não se pede. vinho se oferece. sem ele faço um brinde ao meu ofício de gentes -estátuas-status. faço um brinde ao tudo que se aprende quando se é grande. sem o vinho faço um brinde à possibilidade do trabalho cheio de cores e feitos e pessoas-caminhos e interesses, e dia-a-dia repleto de minhas observações que se ex- pandem como corujas misteriosas e tão transparentes por não conseguir mergulhar mais no que não se é. na barriga o frio de outrora. no pé o derramamento de poesia. nos olhos o preto dos tempos. nas unhas, as cores esquecidas. no tempo a vontade de abraçar e desistir. ou de seguir e vibrar. ou de ser cítrico e de ser flores. o telefone não toca porque não deixo e a água esfria porque permito. cada banho tem a cor que se deseja. às vezes par. às vezes mar. às vezes ímpar. a viagem pra depois fica na vontade. o exterior é aqui. dentro é estrangeiro. perto é coisa de peito. a casa limpa que escorrega as certezas, os papéis que têm o tamanho da dona: brancos e sujos, valores, receitas, cartas antigas, letras velhas. na lembrança a sensação de que nada se construiu. no coração mora o que deve ser amor e é ponte para algum depois sem susto. algum depois presente. o vinho da boca é vontade. desejo e montanha-russa de ser. todo dia sou feita de afeto. todo dia sou paisagem. todo dia, a lágrima. todo dia vestida de aprendizagem. perguntas não dependem de respostas. ex-posta é a res-posta de meu espelho . que abriga os olhos de mim. mim-outros. mim-não. mim-sim.
Escrito por maria roberta às 23:22:01
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